Fernando Pessoa, poeta do século XX, destaca-se dos outros autores do seu tempo pelas suas características próprias que têm a ver com a sua instabilidade emocional.
De facto, Fernando Pessoa considera-se um invadido de si mesmo, facto que o leitor consegue percepcionar através da leitura dos seus poemas. Em primeiro lugar, é notória a presença de uma característica importante que é a multiplicidade dos estados de alma do poeta, isto é a desfragmentação do próprio sujeito poético que se desdobra em várias personalidades (“Não sei quantas almas tenho”). Em diversos poemas é visível a questão metafísica que se encontra relacionada com o diálogo que estabelece entre si próprio e o Outro, onde nos fala dos seus sentimentos múltiplos e de nunca se sentir plenamente bem, uma vez que anseia estar onde não pode estar. Sente-se uma busca incessável entre encontrar a estabilidade, mas a fuga dessa estabilidade.
Podemos considerar, efectivamente a existência de um antagonismo, de um mundo antitético marcado por dois palos opostos observando-se um mundo exterior e um mundo interior turbulento, insatisfeito. Por outro lado, não devemos esquecer a constante oposição existente entre o tempo passado e o tempo presente, em primeiro lugar porque, em poemas como “menino de sua mãe” e “quando as crianças brincam” remete o leitor para a felicidade manifestada durante a sua infância, uma fase irreflectida em que não sentia a dor de pensar. Existe uma comparação explicita com o poema a pobre ceifeira, em que o sujeito poético sente um enorme desejo de ser tão feliz como a ceifeira, que como é inconsciente dos problemas que a rodeiam, e como não conhece outra vida, vive feliz no campo, inconsciente, o sujeito poético sendo consciente sabe o que lhe rodeia e logo deseja ser tão inconsciente como a ceifeira e ter a consciência disso.
Apesar de viver na situação de procura incessante, ele sente necessidade dessa procura, pois se assim não fosse, ele seria igual a muitos outros, isso é coisa que ele pretende evitar, tal como diz no poema “Sou um evadido” onde assume que os seus próprios pais e as pessoas do seu ciclo familiar, tiveram uma influência considerada negativa para o seu desenvolvimento, notando-se a exigência, o mundo fechado com o qual o tentavam tornar um semelhante e o mundo interior rebelde, insatisfeito e revoltado com o exterior. A toda esta questão filosófica encontra-se inerente a melancolia (que o faz aproximar de Mário de Sá Carneiro, outro poeta dúbio na sua maneira de ser) através da frequente sensação de tédio, angústia existencial e infância perdida.
Em suma, existe um jogo de relação entre o eu e os Outros, onde Fernando Pessoa ortónimo se associa à multiplicidade e à desfragmentação de um eu inquebrável.
sexta-feira, 19 de outubro de 2007
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